Inteligência artificial e o novo cenário de riscos para empresas
- Guilherme Henrique Soares

- há 6 dias
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Inteligência artificial e o novo cenário de riscos para empresas
A rápida evolução das ferramentas de inteligência artificial capazes de criar músicas, vozes, imagens e textos altamente realistas inaugurou um novo cenário de oportunidades e riscos jurídicos para empresas. O uso de sistemas capazes de reproduzir estilos artísticos, vozes reconhecíveis ou elementos criativos associados a pessoas específicas levanta questionamentos relevantes sobre direitos autorais, direitos da personalidade e concorrência desleal. Casos recentes envolvendo a reprodução artificial de vozes e estilos musicais de artistas mundialmente conhecidos evidenciam que o debate não é apenas tecnológico, mas essencialmente jurídico e estratégico.
Para empresários, gestores e líderes de inovação, compreender os limites legais do uso de inteligência artificial deixou de ser um tema acadêmico e passou a integrar a gestão de riscos do negócio. A adoção indiscriminada dessas tecnologias pode gerar passivos jurídicos relevantes, danos reputacionais e impactos financeiros expressivos, especialmente em setores criativos, de marketing, entretenimento, tecnologia e comunicação.
Direitos autorais e obras criadas por inteligência artificial
Um dos principais pontos de debate jurídico envolve a proteção das obras geradas por inteligência artificial. A legislação brasileira de direitos autorais parte do pressuposto de que a criação intelectual é fruto da atividade humana. Isso significa que, em regra, apenas pessoas físicas podem ser consideradas autoras de obras protegidas.
Quando uma obra é gerada integralmente por um sistema de inteligência artificial, sem intervenção criativa humana relevante, surgem dúvidas quanto à sua proteção jurídica e à titularidade dos direitos. Para empresas que utilizam essas ferramentas em campanhas publicitárias, trilhas sonoras, conteúdos audiovisuais ou produtos digitais, essa indefinição representa um risco concreto, pois pode comprometer a exclusividade de uso e a exploração econômica do material produzido.
Além disso, há o problema das bases de dados utilizadas para treinar os sistemas de inteligência artificial. Caso esses sistemas tenham sido alimentados com obras protegidas por direitos autorais sem autorização dos titulares, o uso comercial do conteúdo gerado pode ser questionado judicialmente, ainda que a obra final não seja uma cópia literal de criações preexistentes.
Uso de estilo artístico e risco de violação indireta de direitos
Outro aspecto sensível diz respeito à reprodução de estilos artísticos identificáveis. Embora o estilo, em si, não seja protegido de forma isolada pelo direito autoral, a utilização de elementos que permitam associar a obra a um artista específico pode caracterizar violação indireta de direitos, especialmente quando há exploração econômica e potencial confusão para o público.
No ambiente empresarial, isso se traduz em riscos para campanhas publicitárias, produtos digitais e conteúdos de marca que utilizam inteligência artificial para “emular” vozes, composições musicais ou estéticas visuais fortemente associadas a pessoas conhecidas. Mesmo sem a reprodução literal de uma obra protegida, a associação indevida pode gerar alegações de aproveitamento parasitário, concorrência desleal ou violação de direitos da personalidade.
Direito à voz, imagem e identidade pessoal
A utilização de inteligência artificial para reproduzir vozes humanas com alto grau de fidelidade trouxe à tona o debate sobre o direito à voz como extensão dos direitos da personalidade. A voz é um atributo único e identificável, cuja exploração econômica depende de autorização expressa de seu titular.
Para empresas, o uso de vozes sintéticas que reproduzam ou remetam claramente à identidade de uma pessoa específica, ainda que sem menção direta ao nome, pode gerar responsabilidade civil. Isso se aplica não apenas a artistas e figuras públicas, mas também a profissionais cuja imagem ou voz possuam valor comercial relevante em determinado mercado.
O mesmo raciocínio se estende ao uso de imagens, avatares digitais e representações visuais criadas por inteligência artificial que se aproximem excessivamente da identidade de indivíduos reais. A fronteira entre inovação tecnológica e violação de direitos fundamentais é tênue e exige análise jurídica cuidadosa.
Responsabilidade das empresas e gestão de riscos
Do ponto de vista empresarial, a principal questão não é apenas se a tecnologia permite determinada criação, mas se o seu uso é juridicamente seguro. Empresas que contratam ferramentas de inteligência artificial, desenvolvem soluções próprias ou terceirizam a produção de conteúdo precisam avaliar cuidadosamente os termos contratuais, as licenças envolvidas e os limites de uso do material gerado.
A responsabilidade pode recair tanto sobre quem desenvolve a tecnologia quanto sobre quem a utiliza comercialmente. Em muitos casos, o empresário é o elo mais visível da cadeia e, portanto, o principal alvo de questionamentos judiciais. A alegação de desconhecimento técnico dificilmente afasta a responsabilidade quando há exploração econômica do conteúdo.
A adoção de políticas internas de compliance digital, revisão jurídica prévia de campanhas e produtos, bem como a definição clara de responsabilidades contratuais, são medidas cada vez mais necessárias para mitigar riscos relacionados à propriedade intelectual e aos direitos da personalidade.
Panorama regulatório e tendências
Embora ainda não exista, no Brasil, uma legislação específica e consolidada sobre direitos autorais aplicados à inteligência artificial, o tema está em constante evolução, tanto no debate doutrinário quanto nas propostas regulatórias. A tendência internacional aponta para maior proteção aos titulares de direitos e para a exigência de transparência no uso de dados e na geração de conteúdos por sistemas automatizados.
Empresas que atuam em mercados globais devem estar atentas não apenas à legislação brasileira, mas também às normas estrangeiras e às boas práticas internacionais, especialmente quando seus produtos ou serviços alcançam outros países. A ausência de uma regulação específica não significa ausência de responsabilidade jurídica.
A importância da assessoria jurídica preventiva
A utilização de inteligência artificial na criação de conteúdos representa um avanço significativo para a inovação empresarial, mas também impõe desafios jurídicos complexos. Direitos autorais, direitos da personalidade e responsabilidade civil formam um conjunto de riscos que não pode ser ignorado por empresários e gestores.
A assessoria jurídica preventiva desempenha papel fundamental na análise de projetos que envolvem inteligência artificial, desde a fase de concepção até a exploração comercial. Avaliar contratos, licenças, modelos de uso e potenciais impactos legais permite que a empresa inove com segurança, reduzindo a exposição a litígios e preservando sua reputação no mercado.
Em um ambiente de rápidas transformações tecnológicas, a atuação jurídica estratégica deixa de ser um custo e passa a ser um elemento essencial de sustentabilidade e crescimento empresarial.





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